«CONTO COLECTIVO DE NATAL»
Aproximava-se a véspera de Natal, e lá longe na terra do Pai Natal, a azáfama era enorme.O Pai Natal conferia nos seus apontamentos, e conversava directamente com o aniversariante (o Menino Jesus)sobre quem seria merecedor de prenda, este ano.
O Menino Jesus dizia que todos mereciam prenda, uma vez que, de uma forma ou de outra, tinham-se comportado bem durante ano, pelo menos em parte dele. Já o Pai Natal fazia contas à vida era, perante as restrições orçamentais impostas pela Mãe Natal, mais comedida nas prendas.
Por fim, chegaram a um consenso todos os meninos e meninas do mundo seriam presenteados com muito amor, carinho, saúde e... para os rapazes livros e carros ou bolas, para as raparigas bonecas e livros.
...mas a noite é ainda menina. Afastado que foi o cortinado, está ali, debruçado à janela, a espreitar o tempo. Tempo que lhe parece quedo, refugiado na solidão. Não sabe por quanto se espraiará a espera. Então, dá-se a mexer nos pensamentos com a delicadeza de um ourives trabalhando a filigrana de ouro. Vai pensando que há canteiros mortos onde as flores não crescem, e rios que não correm. Pergunta-se se o sol-posto regressará. Volta a espreitar o tempo.
...Sim, ela há-de chegar, porque este Natal vai ser especial e todos são importantes.. O seu pequeno coração de
pássaro azul estava ansioso e palpitante.
Enviou uma mensagem a todos os seus amigos a pedir-lhes para cada um contribuir com aquilo que têm de mais precioso e único, a imaginação. Sabia que todos iriam colaborar e fazer deste Natal o mais divertido e original, mas...
...o bom do Pai Natal andava um bocadinho nervoso. A grande noite de natal aproximava-se e ele estava com dificuldades sérias: as fábricas ainda não lhe tinham enviado os brinquedos e o carro das renas estava avariado. Já via os meninos de todo o mundo a ficarem muito tristes porque, neste Natal, iam ficar sem brinquedos.
Foi então que...
...eu e o meu irmão mais velho (viriam ainda mais 2) dormíamos no mesmo quarto, numa casa onde electricidade só muitos anos mais tarde, tal como a água canalizada. Sabíamos que o Pai Natal nos presenteava sempre com uns chocolates que representavam várias figuras, embora ocas. Como comer chocolate era coisa rara a expectativa era grande. Antecipadamente lá punha-mos na chaminé um sapato de cada.
Embora muito crianças, já questionávamos a existência do Pai Natal. Se não houvesse outra razão, achávamos estranho o nosso sapato, só tinha chocolates, nada de presentes como os que víamos outros miúdos receber. Nah! Não podia ser, havia qualquer engano. Nada como “apanhá-lo “em flagrante e perguntar-lhe directamente, como é que era. Se éramos todos filhos de Deus, porque é que uns, eram mais filhos do que outros.
Numa noite de Natal decidimos manter-nos acordados. Quando o sono apertava dávamos beliscões um ao outro e assim aguentámos até que um barulho suspeito denunciou a presença do tal Pai Natal.
Levantá-mo-nos de rompante dispostos a ter uma conversinha séria com ele.
...Ainda a coxear de tanto beliscão, aproveitámos para agarrar o Pai Natal pelas barbas e eu aproveitei logo para dizer:
-Finalmente, vamos ter uma conversinha... queremos saber o porquê de só termos chocolates porque apesar de nos termos portado muito bem e estudar todos os dias, têm sido anos a fio sem brinquedos...
daqueles que vemos dar aos outros meninos...
...assim quando avistou o Pai Natal, a pequenada que aguardava na praia a sua chegada entrou em alvoroço. Enfrentando a temperatura gélida da água, precipitou-se para o meu rochedo para as desembrulhar...
... Os pais da pequenada ficaram surpreendidos com o desaparecimento dos filhos e correndo, também eles em direcção ao rochedo, estacaram boquiabertos. O Pai Natal, a pedido de uma Avó babada e muita saudosa das suas netocas Afrikanas, decidiu descer num balão insuflável e muito colorido, em plena luz do dia, na praia mais límpida e azul do Oceano Índico...
...e como o Pai Natal é um tipo fiche e viu a pequenada prestes a apanhar um resfriado, voltou para os levar para a praia e assim poderem agasalhados se recomporem e brincarem com as prendas que receberam.
Felizes os pequerruchos viram o trenó do Pai Natal se elevar para lá da
serra e continuar a entrega das restantes prendas, pois já estava com algum atraso e não queria que as crianças ficassem mais ansiosas do que é normal em véspera de Natal...

...Andavam assim todos em desatino, por todos sítios e lugares, esquecendo até o menino. Menino de Jesus chamado e nas palhinhas deitado. O pai que tinha sido apanhado em flagrante achocolatar sapatos fingindo-se de um pai que não era, não conseguia disfarçar a contrariedade. Como iria explicar à restante família que fora apanhado e causador por desfazer uma crença que todos julgavam comum a toda e qualquer criança. Foi então que o filho mais velho, ainda dorido pelos beliscões do mais novo, arquitectou um plano. Explicou ao pai, com o espanto do mais novo, dada a bem engendrada proposta de encenação. Os três combinaram nada ter acontecido. Os irmãos, fingiriam continuar em sonhos natalícios e o pai fingiria não ter sido apanhado. E assim, em grande cumplicidade, juntaram-se aos restantes familiares. Foi tal o teatro que todos os adultos ficaram convencidos que continuariam a prolongar o mito dos putos. O mais velho piscou o olho ao mais novo e depois ao pai e os três esboçaram um sorriso de indulgência. É que para a gente crescida há que ter paciência. O menino Jesus, amante da verdade, também sorriu continuando nas palhinhas onde continuava deitado (acho que por gostar da verdade e que veio a ser crucificado). Mas não só o menino fez isso, foi todo o presépio a sorrir e também a estrela iluminada. Até o camelo do rei Belchior soltou uma sonora gargalhada.…"

...Aconchegados pelo quentinho que brotava da fogueira, até parecia que naquela noite o seu calor tinha “um aspecto” especial, o mais pequeno da família, ergueu-se lentamente do sofá e sentou-se de mansinho no colo do Pai, levantou o braço, ergueu a mão e passou-a levemente pela cabeça do Progenitor, num claro tom de carinho fraterno. A este gesto o Pai respondeu com um beijinho ternurento. A criança repetiu o gesto num ritmado bailado de festinhas, quando de repente pára, desloca o seu olhar para o do Pai e pergunta: - Papá afinal o que é o Natal? ...
...- O Natal meu filho é aquela época em que todas as famílias e amigos se reúnem para mostrar o quanto se amam. Não importa o quanto se magoaram durante o ano o que importa sim, meu filho, é que com o nascimento do Menino Jesus todos se apoiam se reúnem e assim como os Reis Magos vieram lá do Oriente com presentes para o Deus Menino, nós também nesta época trocamos prendas. Mas o que importa meu filho é o Amor,o Perdão e a União de todos. Percebeste meu filho?
- Sim pai, mas, por que é que é só no Natal que existe o perdão?
- Sabes meu filho...
... no Natal as pessoas percebem quem lhes faz falta, aqueles de quem têm saudades, porque é tempo de paz e de união, mas não só no Natal existe o perdão, quem tem um bom coração, quem é capaz de perdoar, tem essa capacidade durante todos os dias da sua vida de perdoar e de amar.
- Papá, isso é que é o amor?
O pai, com os olhos brilhando pelas lágrimas que teimava em esconder, respondeu-lhe com ternura:
-Sim meu filho, O AMOR É ISSO!

Mas, chegou finalmente o ano das prendas especiais.
Sim, o pai Natal e o Menino Jesus esperavam há muito por este ano, para finalmente todo o mundo receber estes presentes.
Ao contrário do que sempre foi até à data na história, os meninos de todo o mundo não iriam receber carrinhos, bonecas ou jogos, o que, mesmo sem ter a preocupação das compras, deixava o pai Natal e o Menino Jesus um pouco ansiosos, não porque não saberiam a reacção do mundo, mas porque queriam ver o seu resultado final.
Juntos, Menino Jesus e pai Natal, iriam formar uma força única para revolucionar o mundo.
Como sempre, os meninos estavam ansiosos para receberem as prendas que pediram nas milhões de cartas recebidas:
- Jesus está pronto, podemos partir?
- Espera um pouco, dá-me as tuas mãos…E juntando as suas mãos, ficaram em silêncio, ambos de olhos fechados.
As ceias de Natal do mundo inteiro estavam a decorrer e eles iniciaram a viagem. Os meninos, ansiosos, perguntavam às famílias, quando chegaria o pai Natal. As horas não passavam…
Chegada a hora, entraram na primeira casa… e em Portugal. Mãe, avó, um menino e uma menina, a morar numa casa exígua, onde se viam várias bacias a segurar as pingas que caíam do telhado. Ao vê-los juntos os dois, ficaram estarrecidos e sem reacção…
- oh oh oh, Feliz Natal…!
- Feliz Natal…!
E virando-se para o saco (muito mais pequeno que o habitual) do pai Natal, tiraram de lá uma bola de luz que ia ficando maior à medida que ia sendo tirada do saco. Juntos, o Menino Jesus e o pai Natal faziam crescer e crescer ainda mais aquela bola de luz, que começava a irradiar pelo pequeno espaço. Da noite se fez dia, e a Luz permaneceu para sempre naquela casa. Imóveis e fascinados, os moradores nada diziam... O esboçar de sorriso nos seus rostos reflectia o que estavam a sentir. A claridade exuberante foi voltando ao normal, e foi ver o espanto e a felicidade perante o cenário em que estavam: do telhado já não pingava, as paredes estavam brancas, os armários e o frigorífico estavam cheios de comida…
- O Menino Jesus?!... O pai Natal?!...– Tentava a mãe perceber.
- Mãe olha para a cozinha… - Balbuciou a menina ao mesmo tempo que apontava com o indicador.
- Mãe olha para o chão… - Exclamou o menino.
A mãe não sabia para onde olhar…
- Oh meu Deus…! - Exclamou a avó de mãos no rosto sem acreditar.
Na mesa da cozinha, também ela nova, tinha três envelopes. Para a mãe, estava escrito:
“Amada: Continua a lutar e a seres tu própria. Este ano não trazemos nada do que é habitual, mas dizemos-te para ires à empresa que fica na Rua das Flores, logo que comece o ano. Tens lá o trabalho que sempre sonhaste e lá te darás bem. Os problemas acabaram hoje. Feliz Natal com Amor…!”.
Para a avó estava escrito:
“Amada: Sabemos que a tua vida não foi fácil, mas estás de parabéns. Terás agora uma velhice em paz nesta casa nova, junto dos que amas. Os problemas acabaram hoje. Feliz Natal com Amor …!"
Para os meninos estava escrito:
“Paulo e Teresa: Este ano não trouxemos um brinquedo com que possam brincar, mas trouxemos Luz e uma casa nova para vocês, sabemos que não ficarão tristes, pois todos os vossos problemas acabaram hoje. Feliz Natal com Amor…!"
Depois de lidas as mensagens foram-se sentar nos sofás da pequena salinha totalmente renovada, sem saberem o que pensar, olhando em volta e interrogando-se: teria sido um sonho? Teriam mesmo recebido a visita do pai Natal e do Menino Jesus? O que aconteceu à casa? E foi assim que tiveram um Natal realmente feliz, e que mudou as suas vidas para sempre.
FIM