segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Casulo

[Foto: Clarisse Silva]

Não. Não saias desse teu casulo. Não perguntes como estou, como tenho passado, se algo me tem preocupado. Fica nesse teu mundo, onde não me atrevo a penetrar. É um gelo ardentemente espesso que me impede de te observar. Onde estás? Sim, tu, sangue do meu sangue, que me deu vida e que vejo todos os dias embora nunca consiga observar. Falas uma fala que não me diz o que um dia gostaria de ouvir, sem apetrechos, sem medos, despindo a alma do tanto que há por dizer. E o que eu te poderia dizer? Ah… Poderia falar-te das mágoas que se avolumam de cada vez que não vejo a atenção ser dada da mesma forma a todos; poderia falar-te daqueles pequenos nadas do quotidiano que tanto gostaria que existissem, ao invés de te ver todos os dias assim; poderia falar-te de um olhar que ficou por dar, uma palavra que ficou por dizer… Tanto que teria para te exprimir que fico-me assim, tal como tu, nesta masmorra consentida conscientemente até que qualquer dia tenha a força e a coragem - caso não a tenhas tu -, de ultrapassar essa parede de gelo que criaste à tua volta. Por enquanto, tomada pelas mágoas que insistem em crescer em mim - mesmo quando nada o faria prever, após uma alegria mútua -, não me sinto com a mínima disposição de tentar mudar tudo isto. Rendo-me perante esse monstro invisível que existe entre nós, não com medo, mas com desconsideração face a toda esta situação. Se queres permanecer nesse casulo, quem sou eu para dizer que não deves?!

27 de Outubro de 2011


6 comentários:

folha seca disse...

Cara Clarisse
Embora vá lendo os seus posts, muito pouco tenho dito.
O seu texto de hoje sensibilizou-me. Quantos de nós, mesmo sem o perceber criamos um casulo à nossa volta que acaba por nos tornar insensíveis aos problemas dos outros. Mas no fundo somos nós que um dia vamos deparar-nos com um dos maiores sofrimentos, a solidão.
Cumprimentos
Rodrigo

Clarisse Silva disse...

Olá Rodrigo,

Sim, quem cria estes casulos, ainda que inconscientemente, acaba sofrendo de solidão. Quem a isto assiste, sofre o tempo todo...

Será sempre bem-vindo, com ou sem comentários. Curiosamente, lá no seu sítio, acontece o mesmo comigo.

Saudações,
Clarisse Silva

Fê-blue bird disse...

Minha querida amiga, que comovente e intenso este seu desabafo.
A vida ensinou-me que há coisas das quais não somos responsáveis e nada podemos fazer para as alterar.
Simplesmente há pessoas que nada aprendem com a vida.
Siga em frente!
beijinhos

Clarisse Silva disse...

Olá amiga Fê,

O que dizer? ... Creio que tem razão...

Agradeço todo o tempo, e todas as palavras deixadas - constantemente - aqui no meu espaço.

Beijinhos,
Clarisse Silva

Rogério Paulo Peixoto disse...

Rendo-me perante esse monstro invisível que existe entre nós, não com medo, mas com desconsideração face a toda esta situação

Como é constrangedor o silêncio, aquela cortina de gelo invisível, que se instala subitamente entre dois seres. Noto no entanto, que não te limitas-te a cruzar os braços. Pelo contrário tudo fizeste para que o gelo se tornasse água.
Mas há certas coisas que só o tempo desfaz.

<<um abraço

Clarisse Silva disse...

Olá Rogério,

Talvez, talvez o tempo desfaça certas coisas, vamos esperar que sim.

Agradeço-te as palavras.
Clarisse Silva